DIA 01 - Trecho: Diamantina X São Gonçalo do Rio das Pedras

 



Dia 01

Trecho: Diamantina X São Gonçalo do Rio das Pedras

Distância: 33Km

 

Agora que a porca torce o rabo...

Já no primeiro dia vamos encarar uma das maiores distâncias de todo Caminho dos Diamantes e, segundo informações do Instituto Estrada Real, este trecho é considerado de dificuldade física nível 5 e de dificuldade técnica também de nível 5 (a escala vai de 1 a 5, onde 1 exige menos do caminhante e 5 exige mais).

Levantamos bem cedo, antes do nascer do sol. Nosso café da manhã foi um lanche que compramos no dia anterior: biscoitinho de sal, bolinhos, vitamina pronta e achocolatado.

Deixamos a pousada às 06h. O dia estava bonito, o clima agradável para caminhar. Passamos pelo centro histórico de Diamantina e paramos para tirar uma foto no primeiro marco do Caminho dos Diamantes.

Primeiro marco do Caminho dos Diamantes

Poucos quilômetros após sairmos de Diamantina, encontramos um grupo de quitandeiras caminhando em sentido contrário ao nosso, carregando caixas cheias de roscas, biscoitos, bolos, etc. Foi a primeira tentação do dia, só não compramos alguma quitanda porque as mochilas estavam lotadas.

Quitandeiras a caminho de Diamantina

O Pico do Itambé,  30º ponto mais alto do Brasil, nos acompanhou a maior parte do trecho, ornamentando a face leste do caminho.

Pico do Itambé

Após três horas de caminhada, resolvemos fazer a primeira parada para lanche e descanso. Encontramos uma casinha à beira do caminho com uma boa área de sombra e um providencial banquinho de madeira na varanda. A casa estava toda fechada, mas o portão escancarado. Decidimos aproveitar a sombra e o banquinho.

Assim que tiramos as mochilas das costas apareceu o responsável pelo local, Valdeci, gari de Diamantina. Ele foi muito receptivo, puxou papo conosco sem aquela desconfiança e medo característicos das grandes cidades.

Valdeci ficou impressionado com nossa aventura e nos disse que nosso esforço naquele dia seria muito grande, mas que mais à frente iríamos passar pelo Ribeirão do Inferno e que lá era um bom ponto para parada.

Valdeci demonstrou ser uma pessoa de bom senso crítico. Ficamos uns 40 minutos conversando sobre vários assuntos: pandemia, os problemas do sistema político do país, os salários exorbitantes que algumas pessoas recebem sem oferecer um benefício significativo para sociedade, como um jogador de futebol profissional, por exemplo, comparado à própria profissão de Valdeci.  Imagina o caos que causaria numa cidade se os garis fizessem greve por um mês! E se os jogadores de futebol fizerem greve causaria algum impacto?

Valdeci e Fred

Terminamos de lanchar, agradecemos a Valdeci e colocamos o pé na Estrada Real novamente.

Esse trecho da Estrada Real é lindo! Repleto de grande beleza cênica natural! Como ele foi traçado ao longo da cadeia do Espinhaço, a caminhada é ladeada por serras, morros, afloramentos rochosos, campos rupestres.

Afloramentos rochosos


Alto da Matilde

Cadeia do Espinhaço na face leste do caminho

Uma forte descida no caminho nos levou até a ponte sobre o Ribeirão do Inferno. Suas águas aparentavam ser bem límpidas e logo após a ponte, à esquerda, há o bar e restaurante Cantinho do Céu, construído às margens do Ribeirão do Inferno.


Ribeirão do Inferno


Entramos, conversamos com a proprietária que confirmou que o rio era próprio para banho e que suas águas eram testadas anualmente. As paredes do estabelecimento se transformaram num verdadeiro mural de fotos, onde mostram várias pessoas aproveitando a estrutura do lugar para se banharem no rio.

Deixamos as mochilas num banco de madeira debaixo das árvores e fomos refrescar os pés nas águas do ribeirão. Foi uma sensação muito boa colocar os pés que pareciam estar pegando fogo, dentro das águas frias do rio.


Ao retomarmos o trajeto uma forte subida nos aguardava, foram 05 penosos quilômetros de subida íngreme, parecia que não iria acabar, mas vencemos a subida!

Subidinha penosa que encaramos!

Por volta do meio dia avistamos a Pousada Paraíso Real, havia vários carros estacionados, um burburinho, sanfona e viola alegrando o ambiente. Fred me disse: “Amor, acho que ali é um restaurante, vamos comer alguma coisa?”

Fred perguntou para uns homens que estavam próximo da cerca se ali era um restaurante. Um deles disse: “Aqui não é restaurante, mas o que vocês precisam? Querem comer? Entrem pra cá!” E foi logo abrindo o portão! Eita hospitalidade mineira!!!



Outro brincou: “Vocês estão vindo de Diamantina? Diamantina é uma cidade boa, só o Prefeito que não presta!” O Fred sacou a brincadeira... O Prefeito de Diamantina era um deles!

O Prefeito de Diamantina se apresentou, Sr. Juscelino Brasiliano, o homem que havia nos convidado para entrar! Ele foi logo apresentando seus amigos: Dr. Gusmão, médico neurocirurgião; Padre Gê, sanfoneiro da festa e ex prefeito de Diamantina; Zé Cueca, o responsável pelas leitoas assadas e ex prefeito de Itamarandiba; Giovane e Vicente violeiros da festa!

Prefeito de Diamantina, Juscelino, ao lado da Simone

Naquela ocasião estavam comemorando o aniversário do prefeito Juscelino! Ofereceram leitoa assada, que estava deliciosa por sinal, churrasco e salgadinhos! Contaram histórias de Diamantina, perguntaram sobre nossa aventura, contaram piadas, foi muito bom! Ficamos cerca de duas horas ali com eles, e isso significava que só chegaríamos a São Gonçalo do Rio Das Pedras após o pôr do sol.


Amigos que fizemos pelo caminho

Com a longa parada o corpo esfriou... As dores musculares em várias partes do corpo apareceram, as pernas ficaram duras e colocar as mochilas pesadas nas costas não foi fácil; então surgiu a segunda tentação do dia: Zé Cueca nos ofereceu, insistentemente, nos levar de carro até São Gonçalo do Rio das Pedras. Foi difícil resistir à tentação, afinal com 30 minutos e sem esforço estaríamos no nosso destino, porém permanecemos firmes no propósito de fazer esse trecho a pé!

Seguimos em frente, havia simplesmente mais metade do caminho para andar!

Faltando poucos quilômetros para chegar em Vau, um lugarejo às margens do Rio Jequitinhonha, meu corpo já não aguentava mais. Minhas pernas não me obedeciam. Fred tentou me apoiar psicologicamente, mas para mim não dava mais! Nesses momentos temos que ter humildade para reconhecer o seu próprio limite.

Em Váu existe um ponto de apoio importante para o caminhante da Estrada Real, é a Vila Real! O lugar conta com área de descanso, banheiro, cafeteria, loja de artesanato e produção artesanal, espaço internet e informações turísticas.

Vila Real em Váu

Um pouco mais a frente, chegamos à ponte sobre o Rio Jequitinhonha. Neste ponto, o Rio Jequitinhonha é o limite entre os Municípios de Diamantina e Serro.

Canion do Rio Jequitinhonha

Ponte sobre o Rio Jequitinhonha

Segundo a planilha do Instituto Estrada Real, Vau fica a apenas 05Km de São Gonçalo do Rio das Pedras, porém essa distância é toda em subida bem íngreme.

Chegando em São Gonçalo do Rio das Pedras, ficamos na pousada da Girlene, a Gigi. Só conseguia pensar num banho, comer alguma coisa mais substancial e dormir. 

Gigi nos recebeu com todo carinho e atenção

É... Como disse no começo da história: a porca realmente torceu o rabo!

Amanhã é dia de descanso em São Gonçalo do Rio das Pedras....

 

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